Terça, 26 de Setembro de 2017
Mídia, com Papa, rearticula hegemonia Postado em: 30 jul 2013

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João Franzin é jornalista
e assessor sindical

*Por João Franzin…………………………………………………………………………………………………..

O poder pensa.

Foi, portanto, de forma pensada que as Organizações Globo (Organizações Veja, Organizações Folha etc.), ou seja, a grande mídia, cobriram a visita do papa Francisco. O objetivo, pensado, era transformar a jornada papal num grande fato religioso, político e midiático. O objetivo foi plenamente atingido, se considerarmos, por exemplo, os milhões de devotos (e curiosos) no ato gigantesco em Copacabana; o espaço na mídia impressa; o tempo em rádios e TVs; e a unificação do discurso repetido – papa simples, papa humilde, papa fraterno, papa amigo dos jovens.

Como pensa, e sabe que as instituições políticas estão na maré baixa e os governantes vivem fase de desgaste, a grande mídia trabalhou com a ideia de construir um líder, acenando com o conselho:
– olha, na política está tudo ruim, a corrupção é sistêmica, o modelo de sociedade esgotou-se; sendo assim, procure abrigo no sagrado, é a única solução.

Mas a mídia sabia que havia um risco. O de que, por problemas operacionais, acontecessem incidentes inclusive de segurança. Por isso, mesmo fazendo um discurso ufanista, os textos e reportagens sempre operavam com um, digamos, subtexto, para, no caso de problema mais sério, dizer:
– bem que alertamos, bem que indicamos precariedades. Para depois concluir: País assim não pode sediar Copa do Mundo e Olimpíada. Como não ocorreram coisas mais graves, esse subtexto ficou nas entrelinhas, sem subir para as manchetes.

Ninguém, nem o Vaticano (que claudica entre tantos problemas sexuais e econômicos), jogou tamanho peso na viagem do chefe de Estado dos católicos. Por que, então, a grande mídia jogou tanto peso? Ela testava seu poder de arregimentação (especialmente junto aos jovens) e, aprovado, buscaria restabelecer sua hegemonia – contestada nas redes sociais e apedrejada em recentes atos públicos.

Se operou com esse sentido, e penso que sim, então o saldo da operação dos barões da imprensa é plenamente vitorioso. Os desvãos políticos foram ocupados pelo discurso midiático. A falta de lideranças carismáticas (na política, na sociedade) acaba sanada pela ascensão de uma figura religiosa. Está, portanto, criado um modelo, que pode ser adaptado para a eleição de 2014, por exemplo. O Joaquim pode ser essa carta. Ou não?

Pré-eleição de 1989, o poder midiático também operou nesse sentido, por meio da desconstrução de alguns e da elevação de outros. Vejamos: Lula levaria o País ao caos; Brizola era agente do tráfico; Ulisses tomava lítio, estava gagá. Na outra ponta, aquecia a temperatura do moralismo (corrupção, Estado ineficiente, Servidores criminalizados etc.). Criado, martelado e repetido o chavão, faltava o personagem, que veio a ser Collor de Mello.

A grande mídia andava meio por baixo, ultimamente. Mas agora, ao testar seu modelo e vencer a parada papal, retoma o triunfalismo e ocupa, de novo, a dianteira da hegemonia. Todo vez que isso ocorre, o Brasil anda pra trás.

Juruna – O secretário-geral da Força Sindical lembra que o sindicalismo esteve completamente ausente da maratona de Francisco. Natural, meu caro.

 

Fonte: Agência Sindical em 29/07/13